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quinta-feira, 27 de janeiro de 2011

Angústia

Angústia.

Uma folha de papel em branco sobre a mesa, a luz da lâmpada amarela, o homem de olhos vermelhos de tanto esfregar, o café, o adoçante e o pão de queijo. Vivido, sessenta anos, sente a angústia de não conseguir se exprimir. Palavras inexatas de uma insônia insana. As ideias desaparecem em instantes como relâmpagos longínquos. Ele descrevia as tantas emoções já viveu, mas essa era inexprimível.

Cinco anos, um acidente na calçada em obras no centro da cidade. Os joelhos esfolados e as calças perdidas com aquele dois rombos na altura dos joelhos. Doeu um pouco, mas não o bastante que o impedisse de dirigir de volta para casa. Os transeuntes o olhavam como a um mendigo quando ele foi em direção ao seu carro estacionado numa vaga apertada e a uma sensação estranha percorria os seus pensamentos.

Em casa, tirou as calças e colocou uma bermuda, fazia calor. Lavou os joelhos com água e sabonete, passou água oxigenada 10 volumes e sentou-se no sofá da sala com um jeito apatetado. Não tinha o que fazer, o dia de trabalho no consultório estava perdido. Dentista há trinta e seis anos. Dez anos na cidade de Carlópolis examinando e tratando de bocas e dentes com problemas. Às vezes, dores de cabeça ocasionadas pela má oclusão dentária. De repente percebeu o engano que fora aquela formatura em odontologia. A cada dia que passava, mais ele pensava em dar uma prótese dentária para os seus pacientes e não vê-los nunca mais. Antes dos joelhos esfolados e das calças rasgadas ele já estava na miséria. A miséria que a odontologia significava na sua vida.

Lembrou do último congresso no qual esteve presente. Era um extraterrestre no congresso. Não se entrosou com a turma. A coordenadora bem que quis animá-lo naquele jantar de 2.004, mas o que ele sentiu foi a angústia de estar longe de casa.

Os joelhos ali, em cima da banqueta de madeira em frente ao sofá, latejando. Foi naquele dia que ele largou a carreira, se afastou dos amigos e resolveu mudar de vida. A vida mesmo vivida de calças rasgadas e joelhos esfolados poderia ser melhor do que aquele amargo que sentia ao adentrar o consultório sorrindo, com os seus dentes brilhando e dizendo que não ia doer nada enquanto o paciente estivesse com a anestesia. Dependendo da situação, depois da anestesia viria o atestado médico e a recomendação para as aplicações de bolsa de gelo para evitar sangramentos desnecessários.

Pegou o telefone, a agenda, e, ali mesmo, naquele sofá, ligou para todos os seus pacientes e transferiu-os para os seus colegas da clínica.

Os colegas interferiram tentando mudar a sua atitude, mas cada palavra servia de reforço para a sua tomada de decisão. Vendeu a cadeira e os instrumentos de trabalho. Ficou sem nada. Mesmo que quisesse não voltaria à antiga profissão.

Conhecedor de higiene, rapidamente conseguiu a licença da prefeitura de Carlópolis e começou a fabricar salgados assados. Queria trabalhar. Alugou um quiosque no parque de diversões para vender os seus produtos. Os seus clientes continuaram os mesmos, se tornou conhecido na cidade como o doutor que virou vendedor de salgados.

O que angustiava era não ter contado ao Renato, o seu filho, também dentista, que mudou de profissão. O filho seguiu a profissão do pai e foi mais longe. Era professor de uma conceituada universidade em Lisboa.

Aquele segredo mantido discretamente do filho era o tormento, motivo da angústia e de noites mal dormidas com a consciência pesando.

Esses pensamentos que surgem a noite durante as conversas com a mulher só aumentam o remorso. Educaram o filho para se transformar em um homem de bem. Homens de bem não enganam os filhos. Pegou firme a caneta, a empunhou como um soldado quando vai à guerra e escreveu:

“Meu filho,

Embora pareça tarde para ensinar as coisas que acontecem na vida, há um ensinamento que eu não te passei, no qual eu falhei. A questão é sobre a grande certeza que se tem nesta vida. E, por favor, não me leve a mal. Estou bem de saúde e o assunto não é a morte. Tenho certeza que alguém em algum lugar nesta cidade perdeu uma lente de contato. Ao comer os morangos com nata servidos no restaurante do parque de diversões ao lado do meu quiosque de salgados, quase me afoguei com ela. Ela grudou em um morango e eu a retirei com o polegar e o indicador de dentro da minha boca.

Beijos do teu pai e da tua mãe.”

Finalmente Renato pai teve uma boa noite de sono abraçado à sua mulher.

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