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terça-feira, 7 de setembro de 2010

Quem quiser que conte outra.

Carrossel das flores.

Contam que tempos atrás existiu uma bruxa muito má. Através dos seus encantos mágicos ela atraía os meninos e modificava as suas feições. Era uma mulher incapaz de amar algo ou alguém.

Joãozinho, um menino bom, filho único de mãe viúva, costureira, morador daquela cidade que nem nome mais tem, caminhava da casa para a escola quando ouviu a conversa de dois meninos: o Hilário e o Tobias. Os dois falavam em tom de voz bem alto e não foi difícil ouvir o tema. Eles contavam que no alto da montanha havia uma casa de uma cor amarelo escuro com janelas marrons e dentro dessa casa tinha uma porção de brinquedos tais como: carrinhos, soldadinhos de chumbo, trens, miniaturas de cornetas, tijolinhos de pedra para brincar de montar castelos e fortes.

Joãozinho pensou que se ele parasse cinco minutos não iria se atrasar para a escola. Pediu desculpas aos meninos por ouvir uma conversa que não era a sua. Perguntou qual era o caminho para se chegar lá e se qualquer menino poderia entrar lá para brincar também.

Observou que o Hilário estava com a boca que lembrava a de um sapo e o achou esquisito. Observou igualmente que o Tobias estava com um olhar que parecia um peixe morto.

O menino ficou curioso e com vontade de conversar, mas foi à escola e somente depois das aulas é que ele foi para casa. Na hora do almoço ele lembrou dos meninos e contou o que ouviu para a mãe dele.

_ Isso é conversa fiada, Joãozinho. Não existem lugares assim.

O menino mudou de assunto e almoçou.

Na semana seguinte, na mesma hora e lugar, o garoto ia à escola quando avistou Hilário e Tobias novamente.

Dessa vez, os dois falavam sobre os lanches na casa pintada de amarelo escuro no alto da montanha. Frutas, sucos, pães e queijos, além dos doces que eles não gostavam de comer.

Joãozinho pensou em convencer a mãe a deixá-lo conhecer a tal casa. Falaria com ela na hora do almoço.

_ Joãozinho, quem são os meninos?

_ O Hilário e o Tobias.

A mãe olhou para o filho e ficou desconfiada.

O Hilário era filho do tecelão, chamado Generoso, e o Tobias era filho do escudeiro Jorge.

No dia seguinte a dona Arminda, mãe do Joãozinho, resolveu ir ao local indicado sem que o filho soubesse. Se fosse verdade, deixaria o filho brincar no local, mas não acreditava na história dos meninos. Ela se vestiu de agricultora, cobriu a cabeça com uma manta marrom cor de casca de árvore e subiu a montanha se disfarçando por entre as árvores.

Avistou o local. Em volta da casa havia um jardim florido. Se realmente não queria ser vista, não poderia se aproximar. Ela se escondeu atrás de um jatobá e ficou observando o local. Estava desconfiada de mais, algo parecia errado e ela percebe que é estranho construírem uma casa de recreação em um local de difícil acesso para as crianças.

Uma hora olhando o local pelas frestas da árvore e aparecem os meninos Hilário e Tobias acompanhados de uma mulher coberta de um manto cinza com capuz. Os pés estavam com pantufas cinzas completando a vestimenta. Ela sentiu um arrepio quando viu a cena, mas não arredou os seus pés dali.

A mulher se dirige aos meninos:

_Hilário, eu preciso de mais garotos comigo. Meu sonho é ter o meu exército. Nasci para mandar. Seja simpático ou deixo a tua boca pequena como a de um peixe e você só poderá comer minhocas.

_Tobias continue disciplinado. Se assim não se comportar, eu mudo o seu nariz e o seu pai nunca mais o reconhecerá.

Hilário e Tobias choram. Depois comentam entre eles da vergonha que sentem em contar aos seus pais que sofrem ameaças de uma mulher. Homens não temiam mulheres. Naquela época era uma desonra, uma mancha para o resto das suas vidas. Era uma pena que sozinhos não conseguissem se livrar daquela bruxa. Ela rondava os garotos e aqueles que subiam tinham uma parte do seu rosto modificados assim que se colocavam dentro daquela casa. Eles queriam muito voltar a ser do jeito que eram. A verdade era que todos que entravam naquele lugar acabavam como soldadinhos da bruxa. Aqueles nos quais ela colocava boca de siri não podiam comer. Era muito triste.

Dona Arminda espera que os meninos entrem na casa e desce a montanha. Resoluta, vai à casa de Generoso, o tecelão. Antes de tocar no assunto, o tecelão conta para ela que teme pela saúde do filho. Antes de sumir, o menino, de nove anos de idade, repentinamente estava com o formato da boca parecida com a de um sapo. Ela conta o que ouviu do seu filho, da montanha, da casa e da bruxa. O tecelão diz que vai visitá-la mais tarde.

Sai da casa do tecelão e vai à casa de Jorge, o escudeiro, para contar a mesma história. A reação do escudeiro é outra. Ele a chama de mentirosa. Diz também que ele prepara o garoto para a vida real. Fala da modificação do olhar do menino como uma prova do conhecimento adquirido com o pai. O menino provavelmente saíra de casa para conquistar o seu espaço. Ele ensinou o filho a ser completamente independente dele.

Corre para casa. Precisa preparar o almoço rapidamente para o filho que daqui a alguns minutos chegará em casa. Quando o Joãozinho entra em casa, ela conta o que fez e diz que o Hilário e o Tobias estão enfeitiçados. Ordena que o filho não se aproxime da casa na montanha.

É noite. O tecelão Generoso bate à porta de sua casa. Ele pede que ela descreva o manto daquela bruxa.

Ele faz o tecido. Ela costura.

Generoso precisa saber a que horas os meninos saem de lá e vêm à cidade. Joãozinho conta onde os vê conversando toda a semana. Através conversa da mãe com o tecelão, o menino percebe que o perigo ronda e espreita a cidade.

O tecelão, com a ajuda do Joãozinho, espera o dia marcado. Na hora marcada, ele vai ao encontro dos meninos. Desta vez Joãozinho não vai à escola e fica de prosa com o Hilário e o Tobias. Generoso aparece disfarçado, vestido de bruxa. Os garotos se confundem e acreditam que a bruxa está atrás deles. O tecelão imita a voz de mulher bruxa.

_Vão para a casa do tecelão, pai do Hilário e peguem tecido para que eu faça um manto novo.

_ A senhora quer tecido da cor cinza?

Ela (o tecelão) responde que sim. Os meninos, com o pavor de sofrerem mais feitiços, obedecem.

Quando chegam lá, contam ao tecelão o sofrimento que estão passando naquele momento e pedem ajuda. Generoso pede para que os garotos se escondam atrás do tear e que saiam do esconderijo quando a dona Arminda chegar e, que fiquem com ela até ele voltar para casa para resolver o problema do ‘tecido’.

O tecelão corre para a casa do escudeiro e diz o que sabe. Jorge, o escudeiro grita:

_Eu não queria acreditar. Você não sabe o que é isso! Eu sei! Essa bruxaria não acaba. Ela desaparece durante duzentos anos. Depois desse tempo, no qual o povo se esquece dela, uma mulher adquire o conhecimento e a “coisa” reaparece. Meu filho nas mãos de uma coisa horrível! É isso que você me diz. Eu tenho o livro de história e sei como fazer essa “coisa” desaparecer. Peço a sua ajuda bom homem.

Jorge pega dois escudos e pede que o tecelão traga a dona Arminda para costurar uma réstia de alhos embutido dentro de cada saco, dentro de cada escudo. Dentro do saco colocam dentes de alho. O olhar da bruxa é maléfico e os dentes de alho os protegerão. Ela desaparecerá assim que comer seis dentes de alho. Será preciso tirar o capuz para que ela possa engolir os dentes de alho.

Quando tudo está pronto, dona Arminda leva Hilário e Tobias para sua casa a fim de distraí-los do medo que sentem da bruxa. O medo da ameaça os faz servos da bruxa.

Da montanha, a bruxa tudo vê na sua bola de cristal. Sabe que planejam acabar com a sua existência por mais duzentos anos. Não existe feitiço contra dentes de alho e ela terá que enfrentá-los.

O tecelão e o escudeiro, cada qual com dois escudos nas mãos, sobem a montanha. Avistam o jardim. A porta da casa está aberta. Eles entram. Avistam os brinquedos na sala e o lanche na mesa da copa. A bruxa aparece na frente deles. Propõe que eles larguem os escudos e se unam a ela. Nesse caso, todos os seus desejos serão satisfeitos. Se a enfrentarem, serão transformados em cactos cheios de espinhos e não abraçarão mais os seus filhos. Eles furam o saco de alhos com um canivete que está estrategicamente preso ao escudo e correm por todos os cômodos dentro da casa para que o alho se espalhe. Neste momento os dois homens se postam na frente da bruxa. Ela chama-os de malditos, os amaldiçoa e os olhos dentro do manto ficam enormes.

Jorge, o escudeiro, protegido com um colar de alhos no pescoço, arranca o capuz da bruxa. Ela aparenta sessenta anos, é alta, clara, olhos azuis gigantescos, nariz fino, um sorriso dominador, suave e seguro em lábios finos, cabelos loiros penteados casualmente.

Jorge come um dente de alho e coloca outro dente de alho na boca do tecelão.

_ Mastigue e engula. Nada vai acontecer de ruim.

Generoso a segura pelos braços. O cheiro do alho espalhado pela casa a faz se sentir zonza. Aproveitando-se da fraqueza momentânea da bruxa, o tecelão grita:

_Coloque o alho e faça com que ela engula.

Ela resiste e é a vez de o escudeiro gritar:

_ Encoste a sua pulseira de alhos no pescoço dela.

Ele encosta o punho dele na parte de trás do pescoço dela.

Ela surpreende os dois e pede para comer o alho quando vê que a derrota é próxima.

_ Eu não costumo perder senhores. Eu comerei seis dentes de alho e renascerei daqui a duzentos anos. Haverá um tempo em que uma bruxa será vencedora.

Os brinquedos vagarosamente desbotam e mudam de forma, são ossos de caveira agora. Eles rapidamente deixam a casa. O jardim é um brejo. Sem flores, sem grama, sem vida.

Na casa da dona Arminda a boca de Hilário volta ao normal e os olhos de Tobias criam vida. Joãozinho observa de novo:

Mãe olhe para eles. Estão voltando ao que eram antes. Eles ainda tem que perder o medo, não é mãe?

Antes que a mãe faça um sinal de sim com a cabeça, O Hilário diz que o tempo o fará perder o medo. O sofrimento foi enorme para que a sua boca, que estava normal, o fizesse esquecer o que passou.

O Tobias, com os seus olhos vivos, comenta:

_ Eu quero ser feliz, quero esquecer o que passou, quero conquistar as minhas vontades. Eu sou criança ainda e minhocas não me apetecem.

Os meninos ganharam o livro de história com a missão de passarem os seus ensinamentos para que se evite que a bruxa e o mau-olhado construam o seu castelo no futuro.

À noite, eles se reúnem, a dona Arminda, Generoso e o Jorge, para organizar uma festa para os seus filhos, afinal, se gente grande erra, o que se dirá dos pequenos.

Convidam alguns vizinhos, alguns amigos, as meninas que são amigas da escola, cozinham um lanche bem caprichado.

Os convidados ficam assustados com o que aconteceu. As crianças se divertem mas os adultos dizem: “Quem quiser que conte outra”.

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