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sexta-feira, 13 de agosto de 2010

O Verso do Reverso, miniconto publicado.

O Verso do Reverso.

Era uma vez um próspero comerciante em pleno estágio de desenvolvimento. O armazém gerava lucro e ele pensava em aumentar o tamanho da loja e colocar mais produtos à venda. Chuvas fortes caíram sobre a cidade de Jaraguá do Sul em 1.974, todos os produtos se perderam na enxurrada, junto com o leito do rio que transbordou. Naquele tempo o seguro não era comum e muitos comerciantes não o contratavam. O empresário Rui se viu na pobreza da noite para o dia.

Olhou para a mulher e os quatro meninos e se perguntou como iria alimentá-los. Procurou ajuda dos parentes, dos vizinhos e dos amigos, mas todos estavam em situação igual ou pior que a dele. Estava desolado e sentou-se na calçada olhando o céu. Vinha mais chuva, céu cinzento, nuvens carregadas e a tristeza espelhava a cidade naquele momento.

Eis que mais um temporal se anunciava, bem perto daquela esquina mais um relâmpago desceu a terra. Atordoado com o trovão, que veio três segundos após o raio, pensou que aquela luz talvez fosse um aviso de Deus. Ele precisava do Ser Superior naquele momento. Lembrou da chácara em Corupá, recém comprada, onde ele se aventurava na vida de pequeno agricultor e onde contava, no futuro, construir uma casa de campo para a família usando parte dos lucros vindos do comércio. Na chácara havia: vinte e cinco galinhas e dois galos, cinco porcos e uma vaca, mudas de milho recém plantadas e uma meia-água com banheiro. Decidiu vender a loja para um comerciante vindo de Porto Alegre e levou a família para Corupá.

Devagarinho arrumou a casa, construiu uma sala, dois quartos e uma cozinha. Era bem menos do que ele tinha antes, mas sobrou dinheiro para manter os meninos estudando no colégio dos padres. Contando com a facilidade de não pagar aluguel e, com a alimentação garantida com a riqueza dos frutos do lugar, ele conseguia sobreviver com os parcos recursos que tinha.

O milho cresceu e Rui vendeu bem a safrinha. Em cinco anos de trabalho, ele e a família conseguiram se reestruturar. Com as economias feitas naquele período, voltou novamente ao comércio. Arrendou um ponto comercial em Jaraguá do Sul. Rui era um vitorioso, voltava à vida na sua cidade natal. A família sentia-se vitoriosa e ficou satisfeita em voltar para Jaraguá.

Em 1.975, Rui comprou a loja, que agora era da família. Não houve prejuízo para a educação dos meninos. Estavam com a saúde em dia. Parecia um sonho.

A loja progredia e estaria tudo bem não fosse uma melancolia que os assomava de vez em quando. Era a lembrança da chuva. Era muito mais que isso, pior que isso, os garotos sentiam saudades da estadia em Corupá. O contato com o campo, a natureza, o rio, a visão das cachoeiras. Eles não sentiram falta de nada. Jaraguá do Sul, que era tão amada por eles, de repente, se tornou incompleta. A palavra “se” insurgia nos pensamentos deles.

_E, se tivéssemos ficado lá o resto dos nossos dias, como seria? Perguntava José.

_Eu cresceria e casaria com a Rita. Lembra da filha do senhor Orlando, aquela rapariga querida, bonita como ela só. Disse Lauro.

_Eu seria padre. Gostei tanto daquele colégio. Agora perdi a vontade. Agora tudo o que eu quero é uma galega para me fazer companhia nos fins de semana. Disse Joaquim.

_Eu seria agricultor. Plantaria cada vez mais e venderia a plantação por um preço melhor ainda. Falou em voz firme o jovem Ivo.

_Talvez fôssemos diferentes, mas não precisamos. Se não tivesse aquela enchente, talvez nem tivéssemos ido até lá. Voltamos a nossa velha boa vida, disse Rui, com voz fraterna de pai.

Laura, a mulher de Rui olha pela janela. Sonhava com o amanhecer na chácara. Queria o leite morno tirado na hora da vaca Saúde. Queria olhar o pôr-do-sol da janela daquela casa abraçada ao marido. Queria um abraço confiante, uma construção a quatro mãos.

A verdade era que a chuva tinha definitivamente dividido o tempo daquela família no antes da chuva e no depois dela. Agora Corupá estava dentro deles. No entanto, o dinheiro vinha do comércio da loja. Os contatos comerciais, os fornecedores e os clientes estavam em Jaraguá. A chácara não gerava renda suficiente para uma vida tranquila, apenas ajustada.

_Já sei! Corupá não sai mais de nós. Corupá virou poesia e poesia é para a vida toda. Vamos cuidar da chácara, vamos continuar a safrinha, criar as galinhas e os leitões. Eu quero mais leite morno para me agasalhar. Eu quero te abraçar olhando para o horizonte. Disse Laura a Rui.

O marido, Rui, a encara estupefato.

_Nós perdemos os móveis, a casa, a loja, ficamos quase sem comida e tu queres reprise?

_Não, não é isso o que eu quero, respondeu Laura. Eu quero que mantenhamos o afeto, o lirismo de Corupá em nossas vidas. Para todos nós Corupá foi um recomeço. Foi uma fantasia que veio de um raio e de um trovão. Eu quero sonhar Corupá. Eu quero a esperança cultivada na terra e nos destinos dos nossos filhos. Tu vais manter a loja, mas vamos para lá todas as vezes que sentirmos vontade de sentir a coragem e a força para recomeçar. Eu quero cultivar a árvore que enfrenta os desafios com otimismo, mesmo na hora em que a dor é inevitável.

Os três filhos mais velhos se divertiram:

_Isso é poesia. Corupá é o nosso poema. É uma história a ser contada.

_Então é conto. Eu cuido do milho e da safrinha. Replicou Ivo.

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