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quarta-feira, 28 de julho de 2010

Esse é de quarta. Conto Herege. Miau.

Herege Herege é um gato preto, que reencarnou desse jeito após ter vivido como o filho de uma mulher descrente de qualquer deus. Ela, cujo nome era Ágata, foi queimada em praça pública e ele, seu filho Agamêmnon, foi jogado no deserto do sertão nordestino e foi comido aos poucos pelos urubus. Ambos, mãe e filho, quando perguntados sobre a forma na qual iriam nascer, escolheram nascer com sete vidas porque não tinham noção do tempo que lhes seria destinado para habitar a Terra. Destino é coisa que não se rejeita e eles nasceram no Brasil do ano 2.000, em Araçatuba, no interior paulista. Logo que eles se adaptaram a beber o leite derramado, lamber latas de sardinha e matar ratos apareceu um anjo daquele deus que eles não acreditavam, em forma de um gato angorá branco com asas e auréola. _Ágata e Agamêmnon: vocês vieram com esta forma para cumprir uma missão. Muitos são os ingênuos nesse mundo. O adversário do ingênuo é a malícia. A missão de vocês será impedir que a gente de bem, com estudos e algum dinheiro se perca em atos impensados ou se deixe levar ao péssimo caminho. Aviso também que os meios usados pelos gatos são pouco ortodoxos. Vocês terão diversão meus amigos. Os gatos ouviram e se dirigiram para a casa do motorista de caminhão João Sebastião. Era na casa dele que eles moravam, mimados pela mulher dele, a Francisca, que os tinha adotado durante a ausência do marido numa das suas longas viagens. Ele fazia carreto de mudanças pelo Brasil adentro e conseguia um padrão econômico confortável para ele, a mulher, que era dona de casa e os filhos João Baptista e Antonio de nove e cinco anos respectivamente. Acontece que era fevereiro e os meninos estavam em férias. Sebastião levou a mulher, os filhos e os gatos para uma viagem ao litoral. Reservou as diárias em um hotel familiar em Ilha Bela, pagou adiantado e pediu à Francisca que fizesse as malas. Partiram em viagem. Os gatos se animaram com a idéia de conhecerem o mar. Eis que desce à janela o gato anjo e pede para que eles desçam em São Paulo para a primeira missão. Eles deveriam ser rápidos e precisos para não atrapalharem a viagem daquela família _Não podemos estragar a viagem, se isso acontece, eu perco uma das minhas asas. Eu preciso que vocês contatem a gata da noite Miaumadruga e a levem até a casa do juiz. “Miaumadruga” e a levem até a casa do juiz.. Eles tinham sete vidas e podiam gastar uma delas na casa do juiz. Souberam que a filha do juiz era assediada constantemente para frequentar festas onde ocorriam orgias. A moça sabia e se recusava a ir, mas convivia com aquelas amigas pensando que bastava dizer não aos convites que não se incomodaria. Aos gatos cabia mostrar à jovem o que é que os amigos dela praticavam. A gata Miaumadruga, que era especialista em orgias, se entusiasmou e fez o melhor que pode. Juntou-se a cinco gatos e começou a miar embaixo da janela do quarto de Laura, a filha do juiz, que estava estudando geografia e foi até a janela para espantar os bichanos. Laura viu um gato pardo olhando atentamente e extasiado um gato marrom, que cobria uma gata mesclada enquanto outros dois gatos se lambiam. Ela parou, nunca tinha visto uma cena assim. Agora ela sabia o tipo de festa que as suas amigas faziam enquanto os pais delas viajavam. Depois do que viu, não seria mais a melhor amiga daquelas amigas. Nunca mais. Ágata e Agamêmnon aproveitaram a hora do almoço da família em São Paulo para aquela missão. Seguiram viagem com a família após correrem em direção ao caminhão. Chegaram a Ilha Bela. Beberam leite, usaram as caixinhas de areia e foram explorar o litoral. Na orla, os gatos observavam o sorriso pleno de otimismo de uma moça com traços delicados e femininos, com uma canga florida amarrada à cintura, de cabelos castanhos dourados ondulados na altura dos ombros, de olhos castanhos de olhar distante. A moça sorria para o infinito. Voltaram para o hotel, satisfeitos. O primeiro dia no litoral foi ótimo. Viram o mar, estavam com areia nas patas. Os meninos jogaram água do mar neles com uma jarra de plástico. Eles, que ficaram na calçada apreciando a paisagem, enfeitados. Ágata estava com laços de fitas vermelhos e Agamêmnon tinha fitas azuis com enfeites de peixinhos verdes. A família faz um lanche na sacada do hotel e um dos meninos avista um gato angorá parado na frente do hotel. Os gatos Agamêmnon e Ágata saem em disparada ao encontro do gato. O que é que o gato anjo estaria fazendo ali? _Vocês viram aquela moça na orla? Ela foi espancada pelas colegas e esconde os hematomas da família. A mãe dela está em convalescença de uma cirurgia de apêndice e não pode se incomodar. O pai dela viajou para São Paulo e volta amanhã. Uma garota planejou a surra. Ela é filha de pais muitos severos e eles a proíbem de ir à praia. Ela sentiu tanta inveja da outra que planejou o ataque junto com outras garotas reprimidas. Quero que vocês miem a noite inteira na janela dessa moça. Elas escolheram o caminho errado e vão se conscientizar disso. À noite Ágata e Agamêmnon saíram do hotel e se posicionaram ao lado dos muros baixos da casa da moça. Começaram a miar de todos os modos e com toda a força da garganta para chamar a atenção da Lícia, a moça ferida. Lícia não dormia, estava acomodada na cama de maneira a sentir menos dor, sentiu uma curiosidade enorme de ver os visitantes. Não tinha a menor certeza de nada e, com medo, apareceu à janela espreitando entre as cortinas. Viu os gatos pretos e dirigiu a sua palavra a eles. _Vocês são o que eu preciso hoje. Eu tive tanto azar que a companhia de vocês só pode me fazer um bem. Eles, ao se perceberem bem vindos andaram sobre o muro, pularam, rolaram e brincaram de lutar boxe. A moça sorriu. Estava machucada, mas sorriu. Parecia que os bichinhos sabiam o que ela havia passado. Passaram à noite toda, os três juntos, a moça conseguiu esconder os hematomas da mãe. O gato anjo apareceu pela manhã e ordenou que eles seguissem essa moça durante o dia. A missão deles na praia era fazer a moça sorrir. _Esqueceu que nós temos donos, perguntaram eles ao gato anjo. _Gatos não tem donos, gatos tem casas. Vocês sabem a duração da temporada dos seus donos no hotel. Saiam e voltem à tardinha todos os dias. Eles vão gostar. É proibido levar animais domésticos à praia. A moça foi à farmácia depois que o pai chegou de viagem. Avistou os gatos e lhes dirigiu a palavra: _Muito bem, os senhores gatos pensam que eu sou uma bruxa? Assim ela amenizava a dor dos ferimentos e do silêncio a que estava submetida. Ela se sentiu bem e foi até a beira do mar. Os gatos ao seu lado. Ela não queria levar gatos à praia e parou no supermercado para comprar um pacote de ração para os gatos. Ao se abaixar para pegar a ração, os hematomas apareceram e uma conhecida de praia, daquelas que gostam de bate-papo, reparou nas coxas com um amarelo arroxeado forte. Lícia não reparou que fora observada. Os gatos se deliciaram com a ração. _Somos golpistas senhor anjo, disseram os gatos olhando para cima com os beiços cheios. A moça volta da praia e eles a seguem de novo. _Meus hereges queridos, até quando me farão companhia? Eles voltaram ao hotel, ressabiados. Como a moça adivinhara o passado deles. Eles tinham que conversar com o gato anjo. O gato anjo apareceu à noitinha para vê-los: _A moça não sabe do passado de vocês. Ela tem que melhorar. Ágata e Agamêmnon acompanharam a moça. Aquela moça do supermercado a encontra: _Eu preciso falar com você. Eu descobri sem querer o que te fizeram e contei ao salva-vidas. Ele vai tomar providências. _ O que ele vai fazer? Eu não sei, mas ele disse que é para você não ir à praia hoje. Ela foi, levou a ração e a deixou na calçada para os gatos. As garotas, suas algozes apareceram trajando um biquíni fio dental. O salva-vidas tirou algumas fotografias abraçando cada uma elas. O gato anjo apareceu enquanto os gatos pretos se refestelavam com a ração. _Missão cumprida! Esse gato anjo era muito diferente daquilo que eles conheciam enquanto humanos. _Divirtam-se gatos pretos, mas voltem ao hotel. Quando eu precisar, eu aviso. Aproveitem o final da temporada com os seus donos. O gato anjo comeu o que restou da ração e quando a moça o viu, alegrou-se novamente. _Até que enfim aqueles gatos pararam de me seguir. O gato anjo a seguiu dali em diante. .

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