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segunda-feira, 19 de julho de 2010

A copa do mundo me deixou a ressaca e muitas saudades. A viúva e o técnico da seleção. É o meu conto de segunda-feira.

A viúva e o Felipão. Pobre Maria, que tinha ficado viúva aos 55 anos, idade em que a mocidade já se foi e a velhice é uma esperança a ser alcançada. Seu marido Paulo Cícero Cerrado morreu aos 65 anos de um enfarte do miocárdio fulminante em 1.999, após trabalhar 45 anos sem parar. Ele deixou uma casa de 80 m2 no Bairro do Capão Raso, em Curitiba. A casa de dois quartos e demais dependências foi comprada por ele e economizada por ela, os dois suaram muito para obterem a casa própria. Deixou um carro, um fusca reeditado, ano 96, que o filho Paulinho dirigia para cumprir a sua rotina das aulas na faculdade, o emprego e nas folgas, levar a sua mãe para um passeio de fim de semana até o pesque-pague. Depois que o marido morreu, Maria modificou o quarto onde o casal dormia. Ela queria no quarto além do útil e velho armário de roupas, a cama e um rádio com relógio. Os outros cômodos da casa ela não mexeu, deixou como eram; o sofá de três e dois lugares, a mesinha de centro e a televisão. Com o dinheiro deixado pelo marido mais a ajuda do filho, Maria dava jeito em suas contas, agradecia a Deus por não precisar de auxílio das instituições financeiras. Maria tinha uma irmã casada. Era a única da sua família que ainda era viva; o marido falecido era filho único e o seu pai e a sua mãe, falecidos. Há três anos atrás o seu pai pegou a meningite e a sua mãe, ao cuidar do marido se contaminou. Sua irmã, Sebastiana, que era casada com João Carlos era diferente dela. João Carlos, comerciante de verduras bem estabelecido, adquiriu o péssimo gosto de rir da dor dos outros e Maria não escapava do seu humor: _ Viúva é como ave de mau agouro, dá azar, ninguém quer por perto. Eu sei carregar batatas com perfeição. Maria, vem que eu te levo comigo. Sua irmã Sebastiana não falava muito diferente: _Coitada da Maria, casou mal, casou com um burro de carga. Quando a gente falava pra ele mudar de emprego e trabalhar por conta própria, ele dizia que preferia ser funcionário. Assim, empacado no serviço, ele gastou os seus anos e os da Maria. Com esse tratamento, Maria preferiu ficar com a companhia do seu velho rádio de cabeceira e comprou um pequeno aparelho de som. Colocou ao lado da televisão na sala, em frente ao sofá de veludo azul. Assim, o rádio substituiu o carinho que ela não tinha mais. Um dia, a solidão deu lugar para um técnico de futebol tomar o seu lugar. Era o técnico do Palmeiras. Maria prestava atenção em tudo que ele dizia no Rio Grande do Sul, em Alagoas e no Palmeiras de São Paulo. O técnico começou a fazer parte da sua rotina e ela torcia para que o time do qual ele fosse treinador vencesse, da mesma maneira como ela gostaria de vencer a sua saudade. Agora Maria dividia a sua atenção e, o que a sua irmã dizia, não a magoava. Agora ela tinha uma obrigação que era acompanhar todos os jogos em que aquele técnico participava. Ela ativava o despertador para não perder nenhum jogo e o despertador nunca desapontou Maria. Até o Paulinho deu para resmungar durante a noite: _Tudo bem, mãe? È tarde mãe! O Paulinho aparece só agora porque filho que não dá trabalho para a mãe, não aparece mesmo. Paulinho estudava, trabalhava e o que sobrava dessa maratona ele dava para a mãe. E Maria respondia: _São os jogos de futebol, filho. Bendito seja o técnico de futebol que me fez companhia enquanto você cuidava da sua vida. Assim foi até a escolha pela CBF do treinador da Seleção Brasileira de Futebol na Copa do Mundo em 2.002, quando Maria soube que o escolhido era Felipão, ela exultou em alegria, não tinha pessoa mais feliz que Maria, ela tinha certeza que o time do Brasil iria ganhar a Copa. Começou a Copa do Mundo de 2.002 e sempre que pôde Paulinho assistia aos jogos do Brasil com a sua mãe, aprendeu com ela a torcer também pelo Felipão. Quando o Brasil ganhava, era ela quem ganhava, quando perdia ou empatava Maria não ouvia os comentaristas, na opinião dela, eles eram maldosos com o Felipão: _Que ninguém venha falar mal do Felipão pra mim. Amanhã não vou sair de casa, senão eu brigo. E o Brasil foi P E N T A C A M P E Ã O! Maria era a campeã, Maria venceu os anos de viuvez, Maria venceu o estigma da tristeza, que ela pensava ter adquirida com a viuvez e conseguiu driblar a solidão! Paulinho compreendeu e festejou junto com a mãe o retorno à vida. Maria vitoriosa queria o filho campeão e comprou para o filho o livro “A Arte da Guerra” de Sun Tzu, o livro indicado pelo Felipão. Maria já venceu!

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