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terça-feira, 25 de maio de 2010

A Janela. Conto publicado em coletânea.

Era Sábado, ano de 1.950, apenas mais um fim de semana para Roberto. Aos sábados ele dormia até tarde e se enrolava várias vezes embaixo da colcha antes de se levantar. Ao meio-dia, ele se espreguiçava e levantava, ia ao banheiro, escovava os dentes, lavava o rosto e pensava no café com leite e no pão adormecido na cozinha. Depois do café, ainda de cueca samba-canção, sentou-se no sofá velho de tecido verde na sala da quitinete, no terceiro andar do Edifício Andaluz, no bairro Tatuapé, na cidade de São Paulo, no qual mora há dois anos, desde que chegou à cidade. Abriu a janela, viu o trânsito mais calmo, a garoa fina e o ritmo de sempre da cidade que parece quieta. De repente, ainda perdido em pensamentos soltos, oriundos da ressaca do forró dançante do bairro, ouviu alguém chamar o seu nome: - Roberto, olha aqui embaixo. Aqui na frente do prédio. Olha Roberto, olha! Parecia a voz do seu primo de Recife que vinha lá de baixo. - É a voz do Ariovaldo? Pergunta em voz alta dirigindo-se a janela. - Sim, conterrâneo. Sou eu em mais ossos do que carne, que a vida lá em cima anda dura e eu me mandei pra cá Ariovaldo em São Paulo é bom demais, pensou Roberto. Correu para o quarto, pôs uma calça qualquer e na pressa desceu as escadas de chinelas a fim de encontrá-lo. Roberto recebeu o primo com a alegria que a seca não tem e o abraçou com um forte aperto. Ariovaldo estava desde cedo na terra da garoa, tinha descoberto o endereço dele com a tia Sebastiana, a mãe do Roberto. Veio até São Paulo de carona num caminhão para tentar a vida no eldorado verde, que para ele era São Paulo. - O coração nordestino é grande e o apartamento é pequeno, mas dá-se um jeito. Disse Roberto. Assim, Ariovaldo se instalou na sala e dividiu as despesas do apartamento com o primo nordestino e conterrâneo das mazelas da seca. Logo, ele arrumou um emprego de porteiro de edifício que era igualzinho ao emprego do parente e fazia um dinheiro extra, vendendo o artesanato que ele mesmo fabricava. Seis meses depois acabou a matéria-prima para a confecção da renda especial nordestina. Roberto, que nessa época estava de férias, se dispôs a uma viagem até o Recife para ver a sua mãe e trazer todo o material que o primo necessitasse. A viagem deu tão certa, que ele começou a voltar à sua terra de seis em seis meses. Com os negócios prosperando, foi preciso que a viagem fosse feita de três em três meses e isto lhe trouxe a saudade da carne de sol, do bolo de rolo e da rede de dormir. Passado um ano e meio, em um fim de semana qualquer, Roberto acordou cedo, foi para a sala, abriu a janela e disse para Ariovaldo: - Estou indo pro Recife pra ficar lá. Quero abrir a janela e sentir o calor da minha gente. Decidi que vou abrir uma fabriqueta de material para artesanato. Fique tranqüilo que você não fica sem o material não. Eu mando pra você. _Faz isso sim, que assim eu tenho como voltar também. Isso aqui é bom, mas eu gosto mesmo é de lá. Vai e deixa que eu pago estas contas de luz e água, e outras essenciais deixa que eu tome conta pra você. Deixe um anel para a Assunta para que ela não te esqueça. Eu faço um anel bem bonito e colorido com o teu nome. Ariovaldo nunca voltou para o nordeste. O frevo e o maracatu, o forró e o baião estavam dentro dele. Cuidou de dar um pouco da sua cultura para o paulista e São Paulo adquiriu um pouco do sotaque nordestino e cresceu como um mandiocal.

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