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quinta-feira, 20 de maio de 2010

Conto publicado em coletânea: Carnaval

Carnaval. Aquele carnaval de 1980 Irene não festejou. Assistiu pela televisão alguns filmes, leu aquele livro que não teve tempo para ler nas férias e o viu que se passava no país pelos jornais, estava em Curitiba para não festejar o carnaval no Rio de Janeiro. De repente, ela tinha a impressão de já ter visto tudo Ela foi nascida e criada em Curitiba. Cresceu, casou e foi morar no Rio com o marido Orlando, carioca. Quando o seu vestido estampado sumiu, no mês de novembro do ano passado, ela não desconfiou de nada. Teve mil ideias sobre o paradeiro do vestido, mas ele estava ao lado das roupas do marido dentro do armário. Em janeiro foi um par de sapatos tamanho 41 que foram parar no armário dele. Aqueles sapatos levantam as piores suspeitas que uma mulher pode ter sobre um homem. O que aquele par de sapatos dourados, com salto e plataforma estariam fazendo no armário do marido? Espere um pouco, pensou, se o vestido estava ali no armário e ele viu e não colocou junto com os meus vestidos e agora aparecem os sapatos ao lado do vestido é porque algo está errado. Planejou uma estratégia. Quando o marido veio com jeito de amante para o lado dela à noite, ela o esperou com o vestido estampado e com os sapatos dourados. Ele sai do banho perfumado e para em frente à cama com os olhos assustados. _O que é isso? _Eu é que pergunto: o que é que isso aqui faz dentro do seu lado do armário? Ele, sentindo a noite perdida, explica que vai brincar o carnaval vestido de mulher. _O quê? Eu sou uma moça educada segundo a santa madre igreja e não vou permitir. Ou você desiste disso, ou, é a nossa separação. Ela levantou da cama, tirou o vestido e deixou no chão os sapatos. Foi para a sala de visitas e esperou amanhecer sem dormir nada. Liga para a irmã Ana Maria e o cunhado Gentil que moram em Curitiba. O casal promete ir ao Rio de Janeiro no final da semana. Antes não porque as crianças tinham aulas e os dois, empregos. A família foi até a casa da Irene, no Rio. Ela parece esquisita quando abre a porta e os recebe. Oferece um sofá de quatro lugares para a família se sentar, e todos sentam no sofá amarelo, a irmã de trinta e dois anos, o cunhado de trinta e cinco anos, o adolescente Joaquim de treze anos e a Maria da Conceição, de dez anos. Irene se coloca na frente dos quatro e começa o discurso: _Ana, você sabe que a educação que recebemos em casa foi primorosa, eu eduquei o Rogério da mesma maneira e hoje ele é um engenheiro formado. Gentil, você é testemunha da dedicação com a qual eu cuido da casa, aqui sempre tem uma refeição gostosa e sempre que chegam visitas eu preparo uma mesa de causar inveja à vizinhança. Joaquim e Maria, por favor comam esses docinhos de leite que eu fiz para vocês. A família se entreolhou esperando o que viria a seguir. _Vocês não sabem o desgosto que o Orlando quer causar não só a mim, mas a toda a família. Ele pegou um vestido estampado meu, comprou uns sapatos dourados e disse que vai pular o carnaval vestido de mulher na banda de Ipanema neste carnaval. A irmã e o cunhado se entreolharam sem jeito. O Joaquim perguntou à irmã se ela sabia o que significava ser “maricas”. Nesse momento, entra na sala o simpático Orlando. _Que alegria encontrar-me com vocês. Como foram de viagem? Vieram para passar uns dias aqui conosco? Irene disse para Orlando que não se fizesse de bobo. Ela é que tinha ligado para eles irem até lá para ajudarem a resolver o problema do carnaval. _Vocês vejam a bobagem que a Irene está pensando. Se ela disser que não está pensando, ela está mentindo. Eu sou um homem casado. Ela não quer pular na banda de Ipanema porque se acha gorda e não quer que as amigas de praia a vejam. Ela se comporta como uma velha rabugenta aos quarenta e cinco anos de idade. Eu tenho cinqüenta e cinco, gosto de me divertir e quero sair. Pensei que se eu usasse um vestido dela, alugasse um par de sapatos, fizesse um borrão como maquiagem, ela não ligaria. Vocês acham que alguém vai duvidar da minha masculinidade se eu fizer isso? A família unida disse que ela jamais duvidaria da masculinidade dele, mas se fosse em Curitiba, no ambiente conservador no qual eles estão inseridos, a família não saberia o que dizer. Nesse ponto o Gentil procurou usar palavras de dicionário para não criar problemas com o cunhado. Orlando convida o Gentil para ir junto com ele e verificar que tudo é brincadeira nessa época de festa. A Ana olha emburrada para o marido e ele diz que não. Bastaria um boato desses para acabar com ele que era um pacato cidadão. Irene intervém: _Viu? Entendeu? Lembra Curitiba? A terra que eu tanto amo. O lugar onde nasci e por esse motivo trago no peito uma saudade infinda de lá. Antes que a conversa esquentasse, Gentil e Ana Maria convidaram o casal para passarem o carnaval em Curitiba. O marido, muito triste com a incompreensão da mulher, aceita o convite e diz que quer pescar lá. Pede em alto e bom som ao cunhado: _Gentil, por favor me providencie um lugar para pescar que eu não quero passar o carnaval vendo televisão com a Irene porque nós vamos brigar. Todos, exceto Rogério, que vai ao baile da cidade no Rio de Janeiro, se acertam e viajam para Curitiba com os homens se revezando ao volante. O casal, os dois magoados mutuamente, fica em um hotel. A irmã caçula dedica toda atenção a irmã mais velha com medo que ela perca o raciocínio e se separe do marido por uma tolice. Ana viu que o cunhado só queria gozar o carnaval e que a irmã estava fazendo uma tempestade num copo-d’água. Agora o seu marido terá que ir pescar junto com o cunhado só para ajeitar a situação, justo no carnaval que eles tinham combinado de ir ao baile em um clube, sabem que ao baile vão poucas pessoas, mas pelo menos eles dançam. Gentil chama o cunhado, afastando-o da esposa, e diz quais são os locais de pescaria perto da cidade e pergunta se ele quer pescaria de rio ou pescaria de mar. O cunhado havia comprado passagens de ônibus para ir ao Rio de Janeiro. Ele paga as despesas e eles se hospedarão no apartamento dele no Rio. Gentil conta à mulher sobre as passagens. Eles se dão bem e são sinceros um com o outro. Ana diz que se é para o bem da irmã, ele que vá, mas se comporte como um homem casado. Se ele foi fiel até agora, não mudaria no carnaval e depois, resmungou sobre a situação constrangedora que a irmã causou a eles. Todos mentem para a Irene, que é teimosa e não abre mão do seu ponto de vista. Lá vão eles para a pescaria que nunca existirá. Chegando de novo ao Rio de Janeiro, Orlando convida o Gentil para ir junto e verificar que a festa é divertida. _Eu vou, mas vou vestido de marido com terno e gravata que roupa de mulher eu não visto não. Orlando aceita que o Gentil vá a festa como se fosse seu marido. Ele pega o vestido da mulher, os sapatos dourados e juntos vão à praia de Ipanema. A banda de Ipanema é animada, as mulheres estão lindas, mas eles são casados. O calor é terrível para Gentil. O paletó o faz se sentir como um sorvete derretendo, mas ele não o tira. Desmaia. Orlando pede água gelada, derrama meio copo de água vagarosamente no rosto do cunhado. _Tira o paletó amor. Diz ele para o Gentil, que está caído no calçadão da Avenida Atlântica. Gentil não brinca mais na banda. Ele prefere assistir a banda passar sentado em um banco calçadão de Ipanema com uma garrafa de água mineral na mão, mas tira a gravata e a põe no bolso do paletó e abre o botão do colarinho para suportar o calor. Orlando, fantasiado de mulher pega nas mãos das lindas mulheres, samba com uma, diz gracejos a todas as mulheres desacompanhadas, mas com o devido cuidado para elas não se ofenderem, afinal ele é uma dama. Na quarta-feira de cinzas, uma hora da manhã, eles entram no ônibus para Curitiba e conversam sobre o que dirão para a Irene sobre a pescaria. As irmãs estão juntas aproveitando o tempo para matarem as saudades e se distraem com as crianças. O clima é bastante agradável, a Irene saiu do hotel e ficou com a Ana, foram ao cinema, caminharam pelas ruas vazias do centro da cidade sem pressa apreciando a companhia uma da outra. Agora conversam sobre o jantar que farão para quando os maridos chegarem. O marido da Ana entra em casa de terno e gravata e o Orlando de bermuda, camisa social de manga curta, meias e sapatos sociais. Eles não esperavam que a Irene tivesse saído do hotel, mas por precaução compraram os peixes com escamas, espinhos e levaram para casa. Os quatro se olham e as crianças se escondem para rirem longe da tia. Gentil, cuja paciência estava a meio minuto de terminar, pediu ao Orlando que falasse da pescaria e foi para a cozinha limpar os peixes. _Fomos até Pontal do Sul no sábado e pegamos o barco. Já em alto mar, o motor pifou e ficamos parados duas horas esperando o barqueiro consertar o motor. O Gentil começou a rezar e eu fiquei pescando bem calmo, coloquei a isca no anzol e esperei. Acontece que o Gentil rezava em voz alta e o barqueiro testava o motor do barco. O que aconteceu? O barulho afugentou os peixes. Depois, quando o motor do barco finalmente pegou, fomos para outro ponto porque ali os peixes não apareceriam mais. Não pegamos nada nesse primeiro dia e voltamos para a cabana montada à beira da praia, próxima à casa do barqueiro. No dia seguinte saímos cedo para o mar e o que aconteceu parece até “olho grande”, quando chegamos em alto mar o barco começou a fazer água e nós, com a latinha das iscas esvaziávamos a embarcação até que o nosso condutor conseguiu nos deixar em terra firme. Chegamos molhados dos pés a cabeça e perdemos as iscas. Passamos o resto do dia preparando as iscas para voltarmos à pescaria. Orlando fica uns segundos quieto para ter tempo para inventar a segunda-feira e a terça-feira de carnaval. _Continue querido, disse Irene meio desconfiada. _Depois te conto, vou ajudar o Gentil com os peixes. O Gentil é tão bom que me arranjou um lugar para pescar, a Ana Maria está sendo uma mãe para nós e é minha obrigação ajudar um pouco. É a minha maneira de agradecer. Com licença. Estavam os dois na cozinha e a Irene pergunta para a irmã se ela reparou na roupa que eles estão vestindo, inadequada para uma pescaria. A Ana chama o marido e pergunta se eles foram à pescaria de terno. _A roupa que eu levei ficou tão esgarçada que eu tive que comprar um terno em Paranaguá para voltar de viagem. Providenciei o terno na terça e eu já aproveito e vou trabalhar de terno novo depois do almoço. _Então não frite o peixe com o terno para poder sair daqui a pouco. O Orlando ouve e grita lá da cozinha que eles precisam voltar ao Rio, que a casa não pode ficar só aos cuidados do Rogério e diz que depois do almoço vai comprar as passagens para voltarem para casa. Almoçam e comem os peixes em paz. No ônibus, de volta ao Rio, Irene se retratou sem pedir desculpas. _Foi bom ter vindo à Curitiba, evitei uma vergonha familiar, matei as saudades da Ana Maria e você, Orlando, se divertiu de uma outra maneira. Aliás, que farra de pescaria. Fico feliz que você tenha vivido essa aventura aqui no Paraná. Você viu como a minha cidade natal é boa mesmo sem ter um grande carnaval? Ele sorri e dorme até chegar na rodoviária do Rio de Janeiro. Quinze dias depois ela pergunta sobre a banda de Ipanema a uma das suas amigas, a Clara e ela conta que se divertiu muito vendo um paulista de terno e gravata ficar em apuros por causa do calor e da teimosia dele em não colocar uma roupa esportiva. Ele foi a sensação da praia. Pena que ele tinha uma aliança na mão esquerda e não conseguiu brincar o carnaval com a banda nem cinco minutos. Dali em diante Orlando e Irene foram felizes para sempre.

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